Existe um momento, em muitas dores ortopédicas crônicas, em que o paciente sente que ficou preso entre dois caminhos: o tratamento conservador "tradicional" não está mais resolvendo, e a cirurgia ainda parece grande demais para o problema. É exatamente nesse intervalo — esse território da dor que persiste apesar de tudo — que a terapia por ondas de choque ganhou seu lugar na ortopedia moderna.
Quero te apresentar essa tecnologia com a honestidade que tento manter em todos os meus artigos. Vou explicar como funciona, em quais condições há evidência forte de benefício, em quais a evidência é apenas moderada, quantas sessões costumam ser necessárias, e o que esperar do tratamento. A literatura científica avançou muito nos últimos vinte anos, e ondas de choque hoje é uma das opções mais estudadas em fisiatria e ortopedia regenerativa.
O que são, de fato, ondas de choque
Apesar do nome — que costuma assustar quem ouve pela primeira vez — não há "choque elétrico" envolvido. Ondas de choque são pulsos de pressão acústica: ondas sonoras de altíssima energia, geradas por equipamentos específicos, que atravessam a pele e tecidos superficiais sem causar dano e entregam sua energia exatamente no tecido lesionado mais profundo.
A história da terapia começou nos anos 1980, na urologia, com a litotripsia — o uso de ondas de choque para fragmentar cálculos renais sem cirurgia. Pesquisadores europeus, ao observarem que pacientes tratados para cálculos relatavam melhora de dores tendinosas próximas, começaram a investigar a aplicação ortopédica. Hoje, mais de quatro décadas depois, a terapia por ondas de choque é um tratamento maduro, regulamentado mundialmente e respaldado por meta-análises de alta qualidade científica.
Como ela age no corpo
O mecanismo principal chama-se mecanotransdução — processo pelo qual o estímulo mecânico (a onda de pressão) é convertido em sinais biológicos pelas células do tecido tratado. Os efeitos documentados na literatura científica incluem:
- Neovascularização: formação de novos vasos sanguíneos no tecido, melhorando a oxigenação e nutrição local — efeito crítico em tecidos com má perfusão como tendões crônicos.
- Liberação de fatores de crescimento (VEGF, BMPs, eNOS): moléculas que estimulam a regeneração tecidual e a remodelação da matriz extracelular.
- Modulação do processo inflamatório: a inflamação crônica e silenciosa que perpetua a dor é reorganizada, permitindo que o tecido entre em uma nova fase de cicatrização.
- Efeito analgésico direto: redução da hiperexcitabilidade das fibras nervosas locais e modulação dos receptores de dor.
- Estímulo à osteogênese: formação de novo osso, útil em casos de consolidação atrasada de fraturas.
É importante destacar que a terapia não destrói tecido quando aplicada nos parâmetros corretos preconizados pela International Society for Medical Shockwave Treatment (ISMST). Faixas de energia de 0,01 a 0,3 mJ/mm² — usadas na maioria das indicações musculoesqueléticas — não causam dano mecânico; promovem estímulo regenerativo controlado.
Onda focada e onda radial: NÃO são a mesma coisa
Esse é um ponto que precisa ficar muito claro, porque grande parte da confusão do paciente — e até de alguns profissionais — vem dessa distinção. Existem dois tipos diferentes de "ondas de choque" no mercado, e eles operam em princípios físicos distintos:
Onda de choque focada (fESWT)
É a tecnologia de verdade a que se referem as principais diretrizes científicas — incluindo as da ISMST. Gera pulsos de pressão extremamente curtos (menos de 10 nanosegundos), com pico de pressão muito alto (até 100 MPa), e que convergem em um foco profundo no tecido. Pode atingir lesões a vários centímetros da superfície, exatamente onde está o problema (uma tendinopatia profunda do quadril, por exemplo, ou uma calcificação no ombro).
A onda focada é gerada por três tecnologias principais: eletrohidráulica, piezoelétrica ou eletromagnética. É essa modalidade que tem o maior nível de evidência científica acumulada e que é referenciada nas meta-análises de alta qualidade.
Onda radial (RPW — Radial Pressure Wave)
Tecnicamente é uma onda de pressão, não uma onda de choque no sentido estrito. É gerada por um sistema pneumático (martelinho de ar comprimido) que se dispersa de forma radial a partir do ponto de contato. Sua energia é mais superficial e perde-se à medida que penetra no tecido — é eficaz para condições superficiais (musculatura contraturada, fáscia plantar, epicondilite lateral em alguns casos), mas não tem o mesmo poder de penetração profunda da onda focada.
Estudos recentes mostram que muitas pesquisas anteriores "confundiram" os dois tipos como se fossem o mesmo tratamento. Isso fez com que resultados modestos da onda radial fossem usados para questionar a eficácia da onda focada — e vice-versa. No consultório, utilizo onda de choque focada (BTL FSWT 6000, sistema eletromagnético) para indicações em que a evidência da modalidade focada é forte.
Em quais condições há evidência forte de benefício
A International Society for Medical Shockwave Treatment classifica as indicações em três níveis: indicações padrão aprovadas (maior nível de evidência), indicações empíricas comuns (uso clínico difundido com evidência razoável) e indicações experimentais (em investigação). Apresento abaixo as principais indicações ortopédicas, com o nível de evidência atualizado segundo a literatura de 2020 a 2024:
Como você pode ver, ondas de choque não são uma panaceia — não é solução para todo tipo de dor. São especialmente eficazes em tendinopatias crônicas, calcificações e problemas de consolidação óssea. Para artrose articular avançada do quadril ou joelho, a indicação é coadjuvante: pode aliviar sintomas e adiar a cirurgia em casos selecionados, mas não regenera cartilagem.
Como é a sessão na prática
Quem nunca fez ondas de choque costuma imaginar algo agressivo. Na realidade, a sessão é bem mais simples do que parece:
- Avaliação clínica e localização exata da lesão a ser tratada — em alguns casos, com auxílio de ultrassom para precisão.
- Aplicação de gel condutor sobre a pele, similar ao usado em ultrassom obstétrico.
- Posicionamento do aplicador sobre o ponto a tratar.
- Disparo dos pulsos — em geral entre 2.000 e 3.000 pulsos por sessão, com frequência de 4 a 6 Hz (o que dá uma duração total de 8 a 15 minutos por região tratada).
- Ajuste contínuo da intensidade conforme a tolerância do paciente, dentro da faixa terapêutica para aquela indicação.
A sensação durante a aplicação varia: a maioria descreve como "desconforto suportável" — uma pressão repetitiva, às vezes com leve formigamento ou pontadas mais intensas quando o foco está exatamente sobre o ponto inflamado. Não usamos anestesia local, porque a capacidade do paciente de sentir o ponto exato da dor é diagnóstica — é ela que confirma que estamos tratando no lugar certo.
Protocolo típico de tratamento
- Número de sessões: em geral, 3 a 5 sessões, com intervalo semanal.
- Duração de cada sessão: 10 a 20 minutos por região tratada.
- Avaliação de resposta: reavaliação clínica entre 6 e 12 semanas após a última sessão.
- Possibilidade de repetição: em casos crônicos, um segundo ciclo pode ser indicado após 3 a 6 meses.
O que esperar após as sessões
Um ponto importante de manejar expectativa: a melhora não é imediata. Ao contrário do que ocorre com infiltrações de corticoide (que aliviam rapidamente mas não regeneram), a terapia por ondas de choque desencadeia um processo regenerativo que leva semanas a meses para se completar.
- Primeiras 48 horas: pode haver leve aumento da dor local — é o "efeito de mobilização" da inflamação. Normal e transitório.
- 1ª e 2ª semanas: redução gradual da dor; alguns pacientes já notam diferença, outros não.
- 4ª a 8ª semanas: melhora mais consistente; sinal de que a remodelação tecidual está ocorrendo.
- 3 a 6 meses: efeito clínico pleno; é nesse momento que a reavaliação final faz sentido.
Durante as sessões e nos dias seguintes, recomendo:
- Manter atividades cotidianas normais — não é necessário "repouso absoluto"
- Continuar a fisioterapia e os exercícios prescritos (potencializam o resultado)
- Evitar anti-inflamatórios não esteroidais (AINEs) por 5 a 7 dias antes e depois das sessões, quando possível — eles reduzem a resposta inflamatória que é parte do efeito terapêutico
- Hidratação adequada
- Aplicação de calor local, se houver desconforto após a sessão (gelo geralmente é desnecessário)
Efeitos colaterais e segurança
Uma das maiores vantagens da terapia é seu excelente perfil de segurança. Os efeitos colaterais, quando ocorrem, são leves e transitórios:
- Dor durante a aplicação — geralmente tolerável e ajustável
- Petéquias ou pequenos hematomas superficiais — desaparecem em poucos dias
- Vermelhidão local transitória
- Aumento temporário da dor nas primeiras 48 horas (efeito esperado)
Complicações graves são extremamente raras quando o tratamento é feito por profissional treinado e em equipamento adequado. Não há radiação envolvida. Não há cicatriz. Não há tempo de recuperação.
Não devemos aplicar ondas de choque em algumas situações específicas:
- Gestantes (qualquer região)
- Coagulopatia grave ou uso de anticoagulantes em doses terapêuticas (caso a caso)
- Sobre tumores ativos conhecidos na área de tratamento
- Sobre infecção ativa no local (osteomielite, abscessos)
- Sobre placas de crescimento em pacientes esqueletos imaturos
- Sobre tecido pulmonar, cérebro e medula espinhal
- Pacientes com marcapasso ou dispositivos cardíacos implantados — avaliação individual
Vale destacar que diagnóstico de câncer prévio (em remissão ou em outra localização) não é mais considerado contraindicação absoluta — as diretrizes ISMST foram atualizadas nesse aspecto, e pacientes oncológicos podem se beneficiar da terapia para suas dores musculoesqueléticas, desde que o tratamento não seja direcionado a área de tumor ativo.
Ondas de choque versus outras opções
Versus infiltração de corticoide
A infiltração com corticoide alivia rapidamente — costuma funcionar em poucos dias — mas seu efeito é transitório, geralmente de semanas a poucos meses, e o uso repetido pode enfraquecer o tendão tratado. As ondas de choque agem de forma oposta: demoram mais para fazer efeito, mas tendem a tratar a causa, com resultados que se mantêm por anos. Em muitos casos, é uma alternativa melhor para tendinopatias crônicas.
Versus PRP (plasma rico em plaquetas)
São tratamentos com filosofias semelhantes — ambos estimulam o processo regenerativo natural. A diferença é a via: o PRP é uma infiltração com agente biológico autólogo (do próprio paciente); ondas de choque são um estímulo mecânico não invasivo. Em alguns casos, são complementares — podem ser usados em sequência para potencializar o resultado.
Versus cirurgia
Em muitos casos de tendinopatia crônica que antes eram encaminhados à cirurgia, hoje a primeira escolha são as ondas de choque. Estima-se que até 70-80% dos pacientes com fascite plantar crônica evitem cirurgia com um ciclo bem conduzido de ondas de choque focadas. Em tendinopatia calcária do ombro, o número é semelhante. A cirurgia permanece reservada aos casos refratários a todas as opções conservadoras.
Perguntas frequentes
Pode, e em casos selecionados há benefício. Mas seja realista: a ondas de choque não regenera cartilagem desgastada. O que ela faz é tratar componentes acessórios da dor (tendinopatias periarticulares, edema ósseo subcondral, espasmos musculares), que amplificam o sintoma. Em artrose leve a moderada, pode prolongar o tempo até uma cirurgia. Em artrose grave (Kellgren-Lawrence 3 ou 4), o efeito é limitado e provavelmente não vale o investimento.
A intensidade do desconforto varia conforme a região tratada, o nível de energia usado e o limiar individual de dor. A maioria dos pacientes descreve a sensação como "incômoda mas suportável", comparável a uma massagem profunda em ponto sensível. A intensidade é sempre ajustada durante a sessão dentro da faixa terapêutica, e a maioria considera o desconforto compensador pelo resultado.
Para a maioria das indicações, o protocolo padrão é de 3 a 5 sessões, com intervalo semanal. Em alguns casos crônicos (especialmente pseudartrose ou osteonecrose), pode ser necessário um segundo ciclo após 3 a 6 meses. A reavaliação de resposta é feita entre 6 e 12 semanas após o término do ciclo.
A cobertura varia significativamente entre operadoras de plano de saúde e código de procedimento (TUSS). Alguns convênios cobrem para indicações específicas com solicitação adequadamente justificada; outros mantêm como procedimento particular. Vale consultar diretamente seu plano e, se necessário, providenciar relatório médico detalhado para análise. No atendimento particular, os custos costumam ser por sessão ou por pacote de tratamento.
Sim — e na maioria dos casos, é até recomendado. Manter atividade física dentro do tolerado potencializa o resultado. O que recomendo é evitar atividade de alta carga sobre o tendão tratado por 48 a 72 horas após cada sessão, e seguir adequadamente o programa de exercícios prescritos pelo fisioterapeuta — exercícios excêntricos, por exemplo, têm sinergia documentada com ondas de choque na tendinopatia do Aquiles e patelar.
A taxa de resposta varia conforme a indicação — chega a 80% em fascite plantar crônica, por exemplo, mas é menor em outras condições. Pacientes que não respondem ao primeiro ciclo podem se beneficiar de: (1) um segundo ciclo após 3 a 6 meses; (2) terapia combinada com PRP, ácido hialurônico ou exercícios específicos; ou (3) reavaliação diagnóstica completa, porque às vezes a falha terapêutica revela um diagnóstico imprecisado.
Pela regulamentação atual do CFM e da ANVISA, o ato médico de prescrição, diagnóstico e definição do plano terapêutico é privativo do médico. A aplicação pode ser feita por profissional habilitado conforme protocolo médico. Em minha prática, a avaliação clínica, a indicação e o acompanhamento da resposta são sempre feitos por mim, em consulta presencial, antes e durante o ciclo de tratamento.
Cada dor crônica tem uma solução possível.
Se você convive com dor articular ou tendinosa refratária ao tratamento convencional, estou à disposição para uma avaliação detalhada e discutir se ondas de choque podem fazer sentido no seu caso.
Conversar pelo WhatsAppReferências e leitura complementar
- International Society for Medical Shockwave Treatment (ISMST). ESWT Guidelines — 3rd edition, julho de 2023. Disponível em shockwavetherapy.org.
- Tenforde AS, Borgstrom HE, DeLuca S, et al. Best practices for extracorporeal shockwave therapy in musculoskeletal medicine: clinical application and training considerations. PM&R, 2022; 14(5):611-619.
- Charles R, Fang L, Zhu R, Wang J. The effectiveness of shockwave therapy on patellar tendinopathy, Achilles tendinopathy, and plantar fasciitis: a systematic review and meta-analysis. Frontiers in Immunology, 2023; 14:1193835.
- Auersperg V, Trieb K. Extracorporeal shock wave therapy: an update. EFORT Open Reviews, 2020; 5:584-592.
- Simplicio CL, Purita J, Murrell W, et al. Extracorporeal shock wave therapy mechanisms in musculoskeletal regenerative medicine. Journal of Clinical Orthopaedics and Trauma, 2020; 11(Suppl 3):S309-S318.
- Wang CJ. Extracorporeal shockwave therapy in musculoskeletal disorders. Journal of Orthopaedic Surgery and Research, 2012; 7:11.
- Rompe JD, Furia JP, Maffulli N. Eccentric loading versus eccentric loading plus shock-wave treatment for midportion Achilles tendinopathy. American Journal of Sports Medicine, 2009; 37(3):463-470.